MEU MANTO AZUL E BRANCO E MEU TAMBORIM

Tania Moreira – São Paulo, 25 de Junho de 2020.


Fonte: Internet

 “Meu pavilhão… Azul e Branco És minha vida…
O meu cantar Eu sou NENÊ e para sempre ei de te amar,
Tirando em primeiro, segundo ou em qualquer lugar.
Vila Matilde é raiz, é quartel general de BAMBA,
Onde me sinto feliz, verdadeira matriz do SAMBA.
Vendo a baiana girar, sinto a mais pura emoção em perfeita harmonia,
Nossa velha guarda que é tradição firma na palma da mão;
Vila… Vila… Tira a poeira do chão,
Vila… Vila… O LADO LESTE chegou e o povo vai cantar:
NENÊ… NENÊ… Para sempre ei de te amar,
Tirando em primeiro, segundo ou em qualquer lugar.”

É por meio destes versos que a técnica de segurança do trabalho e ritmista da bateria de Bamba da Nenê da Vila Matilde, Fernanda Vinuto (38) canta e demonstra o seu amor pela Escola. Bastante conhecida no samba, Fê Lima, como é chamada, admite que, no início, desfilou no maior número de agremiações que pode. Mas foi na Vila, onde desfila desde 2007, que ela encontrou a sua paixão e passou a ter orgulho de tocar tamborim.
Ao Batucada Feminina, Fê Lima conta como iniciou no samba, fala da sua dedicação ao manto azul e branco, de preconceito contra a mulher na bateria e, entre outras histórias, lembra da “tolerância zero” da família com a sua presença no Carnaval. Minha família não é do samba, não é do carnaval; tinham aquela imagem que escola de samba era coisa de malandro, de bandido”, recorda a ritmista.

Como surgiu a ideia de tocar em uma bateria de escola de samba?

Após meu primeiro desfile em 2005, em ala, percebi que o tempo era muito curto. Para poder aproveitar mais, eu teria que desfilar em algum setor que ficasse a maior parte do tempo do desfile na avenida. Como sempre gostei da batucada, não pensei duas vezes e fui aprender a tocar.

Qual foi o mestre de bateria que lhe deu a oportunidade e em que ano isso ocorreu?

Aprendi a tocar com o Mestre Alani, na Acadêmicos do Tatuapé, em 2006. No ano seguinte, iniciei na Vila Matilde, com o Mestre Claudemir.

Quais as influências com o samba e com o carnaval?

Sempre ouvi samba de raiz, samba da antiga que tem uma grande influência com o carnaval, com os grandes fundadores das escolas do Rio de Janeiro: Portela, Império Serrano, Mangueira e Vila Isabel, além da Nenê da Vila Matilde, e Camisa Verde e Branco, em São Paulo.

Qual instrumento você toca?

Orgulhosamente, eu  toco tamborim.

Sabe tocar outros instrumentos e por que escolheu o tamborim, foi pelo fato de ser um instrumento mais leve?

Além do tamborim, sei tocar Djembê (também chamado de djimbe, jembe, jenbe, yembe e sanbanyi), um tambor originário da Guiné na África ocidental. O instrumento é muito antigo e até hoje, importante nas culturas africanas da região Mandingue, que compreende os países Mali, Costa do Marfim, Burkina Faso e Senegal. É um instrumento  musical que possui o corpo em forma de cálice e a pele tensionada na parte mais larga, que  varia de 30 a 40 cm de diâmetro, no entanto não é muito comum nas baterias de escolas de samba. A escolha pelo tamborim foi por gostar muito do som e do efeito dele dentro da bateria, mas gosto muito do surdo de terceira; ainda vou aprender a tocar.

Há quantos anos você toca na bateria?

Só de Nenê de Vila Matilde são nove anos, desfilo desde 2007.

Você acha que as mulheres devem tocar instrumentos mais leves?

Com certeza, não! Mulher pode tocar todos os instrumentos leves ou pesados; é só se dedicar que consegue levar o ritmo como qualquer outra pessoa.

Como você enxerga o espaço das mulheres na batucada?

O espaço cresceu mais, com certeza! Há dez anos, porém, quando iniciei era bem restrito aos instrumentos leves e, olhe lá, havia baterias que nem mulher aceitava, mas com o tempo viram que a mulher também pode agregar conhecimento e técnica no ritmo e foi ficando melhor.

Concorda que as mulheres possuem o mesmo tratamento que os homens dentro da batucada?

Em minha opinião, precisa ter sim. Na batucada, todos somos iguais e não deve haver diferença.  Mesmo porque, o espaço está aberto para todos, não importa a classe social, etnia e nem opção sexual dos ritmistas. Hoje, todos tocam diversos instrumentos, o princípio de uma escola de samba é a “igualdade”.

Em relação à sua família, sempre teve apoio para ingressar na bateria ou teve críticas?

Ah, isso eu nunca tive. Minha família não é do samba, não é do carnaval; tinham aquela imagem que escola de samba era coisa de malandro, de bandido. Hoje, aceitam porque não tem outro jeito! (risos).

Você foi a primeira mulher a tocar tamborim na bateria de Bamba?

Muitos falam que sim, quando eu entrei não havia mulher no tamborim. Mas já ouvi comentários de que, anos atrás, a primeira mulher na batucada foi  a filha do mestre Divino; no caso, ela seria a pioneira. (risos)

O que é tocar tamborim, em uma bateria tradicional, como a Nenê de Vila Matilde?

Responsabilidade e satisfação de fazer parte de uma história com tantas glórias, com a Bateria de Bamba.

Já passou por algum tipo de discriminação ou preconceito por tocar em uma bateria de escola de samba?
Não me recordo, mas também nunca dei muita importância para as opiniões ou críticas.
Resistência é primordial para o ingresso das mulheres nas baterias?
Não só para mulher, resistência é primordial para qualquer um; não é fácil entrar no ritmo de ensaios, apresentações, festas e afins. A cobrança é muito grande, você tem que abrir mão de algumas coisas para poder participar e fazer parte do time.
Você já desfilou em outras agremiações? Quais? Se não, qual o motivo?
No início, é pura empolgação para desfilar o máximo que podemos. Na bateria, desfilei na Acadêmicos do Tatuapé, Tom Maior, Bloco Amizade Zona Leste; como apoio de harmonia, desfilei  no Barroca Zona Sul e Imperial e, apoio de ala, no Camisa Verde e Branco.
 Ensaios, festas, desfile altera sua rotina? Como concilia vida pessoal e profissional, com todas as atividades da escola?
Nossa, muda totalmente! Eu moro bem longe da quadra então, dependendo da apresentação ou festa, não consigo ir, principalmente se tenho que trabalhar no outro dia. Mas vou sempre que posso, a gente deixa um pouco a família de lado e os amigos, para curtir essa época de carnaval.
Nass décadas de 70, 80 e 90, não encontrávamos mulheres na bateria e nem mesmo em instrumentos leves como ganzá, tamborim, cuíca, agogô. Qual a sua opinião sobre a falta das mulheres na bateria, nessa época?
A escola de samba em si evoluiu conforme a evolução do carnaval. Antigamente, mulheres ocupavam locais específicos na agremiação; com a evolução, perceberam que o espaço delas também é na bateria, na harmonia, no carro de som e  atingiram seus objetivos. O Brasil, contudo, ainda é um país machista e isso predominou por muitos anos nas agremiações.
Qual a sua mensagem para as mulheres que desejam ingressar nas batucadas?
Ergam a cabeça e vão em frente. Não vai ser fácil, precisa se dedicar em dobro, mas pode ter certeza que será muito gratificante. Na hora em que soa a sirene na avenida é uma sensação inexplicável e compensa qualquer sacrifício, qualquer cara feia, qualquer preconceito. Defender o seu pavilhão é extremamente gratificante!

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