A CAPOEIRA É MINHA ESPOSA E A BATERIA, MINHA AMANTE!

Tânia Moreira – São Paulo, 13 de Julho de 2020.


Fonte: Internet

Lua Pistoresi é “estrela” na bateria da Vai-Vai e multipercussionista, na capoeira

Atabaque, Berimbau, Pandeiro, Agogô (capoeira), Ganzá são alguns dos instrumentos que fazem da gestora administrativa e ritmista do Grêmio Recreativo Escola de Samba Vai-Vai, Lua Pistoresi, 29, uma multiprofissional do samba e da capoeira. Mas na Pegada de Macaco, apelidada assim a bateria da Escola, Lua se tornou a “estrela” do repinique, “porque dentro da bateria de uma escola de samba o repicar, o som e o estilo do repique são as coisas que mais me chamam a atenção em instrumentos de percussão.”

Como o pai já frequentava e atuava em departamentos da Escola, ela sempre foi Vai-Vai. “No meu primeiro desfile, eu tinha 4 anos e era o dia do meu aniversário”, recorda.

Hoje, Lua toca repinique, instrumento cuja preferência, em princípio, gerou muitas gargalhadas dos amigos, todos os homens. Por ser um instrumento mais tocado por mulheres, ele imaginavam que ela preferia o ganzá (chocalho). Um deles, o Malone, decidiu apostar no sonho dela, a emprestou um repinique e, mais tarde, a apresentou ao professor, Pupa. Lua, então, ganhou um mestre e um namorado! “O Pupa sempre me incentivou, doou muito do tempo dele. O Malone também estava sempre “na escuta” caso eu precisasse de socorro, além da  minha família”, conta.

Lua fala, Na entrevista ao Batucada Feminina, da emoção do primeiro desfile na Pegada de Macaco, do preconceito contra as ritmistas no samba e, entre outros assuntos, revela que ama a bateria, mas é casada com a capoeira! “A bateria é novidade para mim, por isso digo que ela é a “Amante”, pois desperta o sentimento de tesão; A capoeira, digo que é a “Esposa”, porque é vinculado ao sentimento de amor”.

Qual agremiação que você faz parte e quais os instrumentos que você toca?

Sou integrante da bateria do Grêmio Recreativo Escola de Samba Vai-Vai. Eu toco atabaque, Berimbau, Pandeiro, Agogô (capoeira), Ganzá, Repinique. Na Pegada de Macaco, porém, eu toco repinique porque, dentro da bateria de uma escola de samba, é o instrumento que tem o som e estilo que eu mais gosto. Além disso, uma das coisas que me chamam mais a atenção em instrumentos de percussão é o “repicar”.

Quais as suas influências no samba?

Sempre fui Vai-Vai, meu pai ( ) foi frequentador muitos anos da escola e atuou em alguns departamentos. No meu primeiro desfile, eu tinha 4 anos e era o dia do meu aniversário. Na adolescência, comecei a frequentar sambas e pagodes e aprendi a tocar pandeiro, mas era amadora! (risos) Só olhando quem tocava porém, por ser ambidestra, tive essa facilidade e fui aperfeiçoando com o tempo. Em bloco, comecei tocando ganzá, pois minha maior dificuldade em desfilar em agremiações era a responsabilidade e compromisso que, como uma boa aquariana, não gosto! (risos) Mas acabei me rendendo à minha escola do coração.

Quais foram os seus incentivadores para começar a tocar em uma bateria?

Primeiramente, foram dois amigos: um ritmista e outro, da coordenação de bateria. Em princípio, eles quiseram saber o motivo pelo qual eu só saía em bloco e não desfilava pela Vai-Vai, já que sempre fui da escola. Expliquei que eu não gostava de compromisso e que não havia possibilidade para eu tocar o meu instrumento preferido.

Eles disseram que era possível sim, acharam que eu estava falando do ganzá. “ Vem na cozinha com nós!” Eu disse não, se eu desfilasse, gostaria de vir no repenique. Eu me lembro das gargalhadas como se fosse hoje!

Um deles, o Malone, me perguntou se eu sabia tocar o repinique, eu disse que não, e as risadas permaneceram. Ele, porém, me desafiou, disse que se eu aprendesse em 2 meses, me apresentaria lá na bateria para fazer os testes, eu topei! Ele me emprestou um ripa e fui treinando. Pedi para vários amigos, que sabiam tocar, me ensinar, mas eles estava sem tempo.

Vendo que eu estava realmente interessada, o Malone falou com o Pupa, meu professor e atual namorado, a respeito de mim, e perguntou se ele poderia me dar umas aulas. Ele aceitou e foi assim que fui me desenvolvendo. O Pupa sempre me incentivou, doou muito do tempo dele. O Malone também estava sempre “na escuta” caso eu precisasse de socorro, além da  minha família. Após a minha evolução, surgiram mais incentivadores” mas, sem dúvidas, os principais foram todos aqueles (muitos!) que disseram, “NÃO VAI DAR PRA VOCÊ”.

Em sua opinião, qual a diferença entre percussionista e ritmista?

Sou leiga no assunto, espero não estar falando “abobrinha”, porém acredito que o ritmista é  aquele que toca instrumentos especificamente de baterias de Escolas de Samba; já  o percursionista, executa todo e qualquer instrumento de percussão, como Um Capoeirista, que sabe tocar os instrumentos da roda: Atabaque, pandeiro, berimbau).

O que acha do ingresso do gênero feminino nas baterias das escolas de samba?

NECESSÁRIO. Eu acho que todas as pessoas tem que estar em todos os lugares que quiserem, fazendo tudo o que quiserem, pois acredito que o que lhe torna capaz de fazer ou ser é sua força de vontade, não quem ou o que você é. Sou a favor não só do ingresso das mulheres nas baterias, como também das pessoas  com deficiência, crianças, idosos, todos! Por ser um “ esforço físico puxado”, muitas pessoas acreditam que para homem é mais fácil tocar na bateria e é fato, a estrutura e resistência masculina é maior do que a da mulher, porém nós podemos adquirir força para FAZER O MESMO. As pessoas devem “mergulhar de cabeça” no que as fazem felizes, pois acredito que é seu empenho que te capacitará e não tem nada mais MOTIVADOR do que FAZER ACONTECER o que queremos. Independente de nascer ou não com o dom para o samba, quem quer, consegue. E nós estamos aqui, mostrando que É REAL, PODEMOS! Só sinto muito em ver que lutamos muito para fazer parte de tudo isso e, em algumas situações, ao invés de nos fortalecer, nos dividimos. Vejo muita briga, desentendimentos, vaidade em alas que têm muitas MULHERES, o que me deixa triste, pois  unidas ficamos em pé,; divididas, caímos! Devemos apoiar umas às outras, independente de naipe.

Você também pratica capoeira. Bateria ou capoeira?

Pergunta difícil! (risos) A capoeira é aquela que me acompanha por muito tempo, foi a minha primeira experiência. Digo que é a “Esposa”, porque é vinculado ao sentimento de amor; é estar ali mesmo depois de tantas decepções e desilusões; é lembrar de momentos bons com sorriso, é se distanciar mas não se desligar, entende?

A bateria é novidade para mim, cheguei agora e estou conhecendo tudo ainda, não tive tempo hábil, por isso digo que ela é a “Amante”, pois desperta o sentimento de tesão, de coisas novas, supre a falta que a capoeira faz. Eu, porém, não saberia escolher pois, em questão de superação, discriminação e felicidade, as duas tem absolutamente o mesmo peso para mim.

Você passou por algum constrangimento familiar por fazer parte da bateria da Vai-Vai?

No início, sim. Quando revelei o instrumento que eu queria tocar, eles perguntaram se eu estava louca. Como conhece bem os princípios machistas do “mundo do samba”, porém já sabia que eu iria de qualquer jeito, meu pai  me alertou: “Vá, MAS NÃO Reclame! Você SABE o que lhe espera”.

Qual o seu sentimento ao fazer parte da “Pegada de Macaco”?

Estar aonde eu queria, fazendo o que eu queria, é maravilhoso! Eu gostaria que todas as pessoas pudessem sentir isso.

Como foi aprender a tocar repinique em apenas 2 meses e aperfeiçoar a dinâmica de batida 12 semanas antes do desfile?

Cara, quando eu quero alguma coisa, eu dedico todas as horas do meu dia para aquilo, me empenhei muito para que isso acontecesse. Eu estava sempre com a baqueta, ia e voltava do trabalho exercitando o pulso e falando o som que eu precisava tirar do instrumento. Tive um professor competente, rígido e atencioso, o que favoreceu para que as coisas acontecessem rápido. Mas confesso que eu também fiquei surpresa com o resultado.

Você já sofreu algum tipo de preconceito ou discriminação por tocar em uma bateria?

Não, sou nova na bateria e acredito que não deu tempo para que isso acontecesse. Estou ciente, porém, que existe e, mais cedo ou mais tarde, poderei ser mais uma vítima do preconceito e da discriminação por ser mulher e tocar em uma bateria de Escola de Samba.

Como concilia ensaios, desfiles, trabalho e vida pessoal?

Cara, eu não sei, sou muito doida, não planejo nada, mas dá tudo certo! Vou indo sabe? Seguindo o “baile”… (risos)

As mulheres tem o mesmo espaço que os homens dentro da batucada?

Com certeza, não! É nítido que sermos tão boas quanto os homens, os incomoda muito. Ao ingressar neste “mundo”, observo que o “clima” não nos favorece. Certa vez, eu estava com bolhas nas mãos e uma delas estourou e sangrou. Ouvi, por exemplo,  coisas do tipo “Instrumento de homem é assim mesmo, machuca a mão de mulher”. Eu Então parei e me perguntei, ironicamente: “Eu estou com o repinique de outra pessoa? Porque sou mulher e esse repinique é meu? De que instrumento eles estão falando?” (risos)

Conte-nos a polêmica de desfilar na mesma bateria, tocando o mesmo instrumento que seu namorado. Isso influenciou, atrapalhou ou ajudou em seu ingresso na bateria?

Teve seus prós e contras. Antes éramos somente aluna e professor e, um tempo depois, começamos a nos relacionar, Foi um alvoroço! Muitos não me queriam lá, mas sabiam que eu TOCAVA. Fiquei todos os ensaios ouvindo o que eu já esperava, “Só porque é mulher do cara”, principalmente depois que saiu a lista dos aprovados para desfilar, em que eu estava e muitos outros não estava…

Em um ensaio, o Mestre Tadeu fez uma peneira e chamou alguns HOMENS para tocar; de dez, ele apontou falhas em oito. No fim, ele me chamou e, para a surpresa de muitos, eu toquei certo, alto e no andamento correto do Vai-Vai! Ouvir o Mestre dizendo que eu era uma mulher, que estava tirando mais som que eles e ver o olhar de surpresa de vários que disseram que eu não conseguiria, sem duvidas, foi uma das melhores sensações que já senti! O Pupa me apoiou e me ajudou muito. Ele esteve o tempo todo ao meu lado, sem abusos ou falta de respeito.

Foi uma experiência muito gostosa, um sonho realizado para mim que, de início, nem tinha a pretensão de desfilar, somente em aprender a tocar. Ele sempre falou da felicidade que sentia em eu desfilar ao lado dele e, graças a ele também, isso aconteceu.

Na capoeira existe a exclusão do gênero feminino?

Sem dúvidas, assim como na bateria, eles subestimam mulheres. Por força física inferior somos, muitas vezes, colocadas na posição de “café com leite”, em que no jogo ou até mesmo no treino, os homens não jogam e não treinam de igual pra igual. Outros, simplesmente, não jogam com mulheres e, até quando uma mulher aplica um golpe desequilibrante ou até mesmo traumatizante em um homem, gera muito alvoroço! Quando isso acontece,  sinto que os homens tem muito mais dificuldades de aceitação, eles preferem que uma criança faça isso a uma mulher. Para conseguirmos nosso lugar e, acima de tudo, permanecer e se impor nele, temos que treinar e nos empenhar dez ou cem mil vezes mais, , com humildade sempre.

Meu irmão, que também foi meu professor, me dizia, “Você vai entrar na roda,, vai pra cima deles, não importa o tamanho, o peso ou a idade do cara. Você não vai deixar ninguém lhe apavorar, aqui não tem homem e mulher, todos são capoeiristas!” E é isso que eu levo pra minha vida até hoje. Vou na moral”, porém sei bem a intensidade do meu ataque, e a resistência da minha defesa, não só na capoeira, mas na vida.

Lugar de mulher é?

Onde ela quiser, onde estiver feliz.

Existe algum instrumento específico para uma mulher tocar?

Todos, como eu disse, são para os que quiserem tocar, mas acredito que o principal “instrumento” que as pessoas deveriam tocar chama-se Vida, para cada um sair tocando a própria vida, da maneira que achar melhor!

Hoje podemos observar muitas mulheres nas baterias. Você acha que essa inclusão virou uma maneira de quebrar tabu ou aumentar a visibilidade do gênero?

Eu acredito que acabou atingindo os dois objetivos porque, na minha opinião, uma coisa está interligada com a outra. Indiscutivelmente, os dois pontos são um progresso.

Qual a mensagem que você deixa para as mulheres que tem interesse em ingressar em uma bateria de escola de samba?

“Só vai!” Nós somos as únicas representantes de nossos sonhos. Portanto, se você quer ser ou fazer alguma coisa, nada pode lhe parar!

O que acha do espaço criado pelo Batucada Feminina para abordar o assunto do ingresso do gênero feminino nas batucadas?

Polêmico e Importante. Polêmico, porque aborda um assunto que muitos preferiam que ficasse “em baixo do tapete”; Importante, porque valoriza, incentiva e encoraja não só as mulheres, mas toda a pessoa a fazer o que tem vontade. Com certeza, o Batucada Feminina  une as mulheres dispostas a ajudar outras mulheres a conquistarem o espaço que elas quiserem!

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