Adrenalina Que Faz Meu Coração Disparar, Vai Vai

Tania Moreira – São Paulo, 06 de Agosto de 2020.


Fonte: Internet

Luana, a musa do chocalho da Pegada de Macaco.
A boa filha à casa torna. Ela passou a infância distante da sua escola de coração, no bairro de Santo Amaro, Zona Sul da cidade de São Paulo. Mas sabendo da sua origem no centro da capital paulista, os amigos da cabeleireira e ritmista, Luana Beatriz Assumpção de Oliveira, 40, a levaram de volta para o bairro da Bela Vista. O retorno, na adolescência, fez com que ela se jogasse nos “braços” da Pegada de Macaco, carinhosamente chamada a bateria do Grêmio Recreativo Cultural Social Escola de Samba Vai-Vai.
A cabeleireira conta, ao Batucada Feminina, que começou a gostar de samba e carnaval por influência dos seus pais que ouviam muitos sambas enredo; afirma que nunca sofreu preconceito e não foi discriminada na bateria por ser mulher; explica como concilia maternidade e ensaios para o carnaval e, entre outras revelações, confessa que escolheu o chocalho por acaso, por achar um instrumento mais simples. Ao contrário do que muitos afirmam, porém, Luana, que também sonha em tocar surdo de terceira na bateria da Escola, garante que o chocalho não é um instrumento nada leve. “Tem marmanjo de braço forte que não aguenta! Tem mais a ver com treino, nada com o sexo”, diz.

Qual a sua escola de coração? E por quê?
Nasci no bairro da Bela Vista (bela vista!) porém, ainda criança, mudei para Santo Amaro. Na adolescência, voltei para o meu lugar de origem por meio de convite de amigos aí foi inevitável, o coração me levou para perto da escola. Eu sou Grêmio Recreativo Cultural Social Escola de Samba Vai-Vai!

Quais as suas influências no samba?
Minha influência veio dos meus pais, Neuza Dias Assumpção e Carlos Eduardo Souza Oliveira, que ouviam muito samba enredo e eram admiradores do carnaval. Foi de forma natural que eu também passei a gostar de samba e tudo que envolve a maior manifestação cultural do planeta. Lembro que meu pai ouvia Jamelão, intérprete falecido da Estação Primeira de Mangueira, em casa e também colecionava muitos LPs de carnaval.

Qual instrumento que você toca e por que o escolheu? Sabe tocar algum outro?
Eu toco chocalho, o escolhi por acaso. Na verdade, eu queria desfilar na bateria e, no momento, foi o que eu achei mais simples. Fiz escolinha de surdo de terceira e quero me aprimorar nesse instrumento.

Quais foram às pessoas que lhe deram oportunidade de ingressar na bateria?
Uma grande amiga, Carol, ritmista que toca cuíca na bateria, me levou ao ensaio da Vai-Vai. Mas a primeira oportunidade veio por meio de uma pessoa especial, Richard de Paula, que hoje, carinhosamente, eu chamo de irmão, ele me emprestou o seu chocalho. Passei por algumas peneiras com o grande percussionista Agostinho Bocão e com o Mestre Tadeu que, na última hora, confiou em mim e me deixou desfilar.

A primeira vez que você foi ao ensaio com olhar voltado para bateria foi em 2006. Como você foi recebida na batucada pelos ritmistas?
Eu sempre olhei a bateria com amor, mas em 2006 decidi encarar e fui muito bem recebida. Hoje, são poucos do naipe de chocalho que continuam, mas o “time” daquele ano era muito bom!

Qual foi o seu sentimento ao desfilar pela primeira vez no ano de 2007 em uma bateria de tanta tradição, como a “Pegada de Macaco”?
Minha perna tremeu aliás, como treme todos os anos! Chorei, enlouqueci, difícil até explicar.

Como você conciliou, e concilia, maternidade e vida de ritmista?
No começo foi difícil, porque não achava justo deixar meu filho, Murilo, para ensaiar, eu ficava com dor na consciência de deixá-lo com alguém. Depois que ele nasceu fiquei 2 anos sem desfilar, mas ele cresceu e, assim como todos em casa, começou a gostar da escola. Então, percebi que não havia problema tê-lo em minha companhia nos ensaios, não causaria nenhum sofrimento a ele.

Por parte dos ritmistas do gênero masculino, você já passou por algum tipo de preconceito ou discriminação por tocar em uma bateria?
Não. Quanto ao tratamento às ritmistas, confesso que é igual porque, os homens querendo ou não, nós invadimos a batucada. Se era isso que eles queriam, não conseguiram nos frear!

O que você achou da evolução do instrumento chocalho dentro da batucada?
Hoje, com a cobrança dos jurados, as baterias evoluíram muito então, um instrumento que muitas vezes ficavam lá no fundo sem importância e, muitas vezes, sem diretor, cresceu junto. Atrevo-me, inclusive, a falar que o chocalho (ganzá), no meio de todos os instrumentos, foi o que mais cresceu de uns anos pra cá. O instrumento não tinha nenhum reconhecimento mas, em minha opinião, hoje recebeu seu real valor com isso, seus ritmistas também são mais valorizados.
Em sua opinião, ao desfilar em diversas agremiações, o ritmista perde a essência?
Penso que é muito bom saber como é o lado de fora do seu “quintal”, é um grande aprendizado. Dessa forma, eu tenho muito a agradecer às outras agremiações pelas quais passei, sempre fui bem recebida e me ensinaram muito!

Como você lida com a rotina dos ensaios e com o Mestre Tadeu, que mantêm a tradição de ritmista da agremiação, não pode sair em outras?
Sobre o Mestre Tadeu, o respeito muito, sei o que ele pensa sobre o assunto. Também respeito às escolas do grupo de acesso, ele permite, mas gosto de tocar até quando relato que não vou desfilar. Acabo caindo em contradição e desfilo, me desdobro. Não é fácil conciliar os dias de ensaios da minha escola de coração, Vai Vai, que sempre será prioridade, com os ensaios das coirmãs. Confesso, contudo, que tem hora que, quando chega perto do carnaval, é só Deus, eu me multiplico em 1000!

Existe diferença em desfilar na bateria de uma escola de grupo especial e desfilar em um bloco?
Não vejo diferença na responsabilidade de ritmista, mas desfilar em um bloco é muito gostoso, um pouco mais leve.

O Vai Vai se tornou hereditário em sua família. Como é lidar com tantos adeptos em uma mesma casa?
Vixiiii! É bem legal ter a família junto, mas as vezes complica reunir todo mundo, tem atrasos, cada ala tem um horário diferente. Para se concentrar, tanto nos ensaios quanto no desfile, é uma bagunça mas, quando não dá briga, é bem engraçado!

O que acha do ingresso das mulheres nas baterias das escolas de samba?
Acho maravilhoso! Mas adoraria desfilar tocando surdo na minha Escola Vai-Vai, porém ainda acho que é um sonho distante. A nossa batucada é muito pesada, o ritmo para frente então lá, ainda não conseguimos invadir. Mas com fé em Deus e se o Mestre Tadeu permitir, um dia vamos conseguir!

O enredo do carnaval de 2017 da Vai Vai foi muito forte em relação ao rito do candomblé e podemos observar que muitas ritmistas rasparam o cabelo. Você não passou por esse processo? Por quê?
Foi forte sim, mas nem todo mundo da escola é do candomblé. No meu caso, então, foi muito bonito, mas só um desfile mesmo.

Mulher na batucada perde a feminilidade ao tocar um instrumento mais pesado?
Não, pois quem é feminina é até escondida no meio de 250 pessoas. O instrumento não tira feminilidade.

Lugar de mulher é? Por quê?
Em qualquer lugar, no salto alto ou dirigindo um caminhão. A prova disso é que no chocalho tem muitos homens que não aguentam tocar, ainda mais na bateria do Vai-Vai que tem o andamento mais para frente. Porque mulher pode tudo, é só querer!

Cada bateria tem seu estilo próprio de tocar. Você concorda com a ideia de comparar as batucadas aqui de São Paulo com as do Rio de Janeiro?
Polêmico isso; eu, particularmente, não gosto de comparação. Temos nossa identidade e não quero perder, Rio é Rio São Paulo é São Paulo.

Costumam dizer que mulher que toca em bateria é lésbica. O que acha dessa teoria?
Acho ridículo! Mas se fosse ou se for, qual o problema? Nenhum em minha opinião. Orientação sexual não tem nada haver com o ritmo ou com a escolha da profissão em geral.

Por ser mais leve, o chocalho é um instrumento só para as mulheres?
Leve? Toca chocalho na Pegada de Macaco por uma hora para ver se ele continua leve! Como eu disse, tem marmanjo de braço forte que não aguenta! Tem mais a ver com treino, nada com o sexo.

O que achou do espaço cedido pelo Batucada Feminina em relação ao “empoderamento feminino”?
Acho que tudo que eleva a mulher é maravilhoso; o que eu puder fazer para ajudar, estarei disponível. Temos que nos unir, sempre!

Qual a sua mensagem para as mulheres que têm interesse em aprender tocar um instrumento ou até mesmo ingressar em uma bateria?
Coragem mulheres! Somos fortes, guerreiras e conseguimos tudo que quisermos. E tocar em uma bateria é maravilhoso ainda mais na escola de coração, uma experiência inigualável!

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