TEM NEUROCIENTISTA NA BATUCADA

Tânia Moreira – São Paulo, 16 de Junho de 2020.


Fonte: Internet

A estudante Talita Senra e o seu agogô são presenças marcantes nas baterias da faculdade e da Nenê da Vila Matilde.
Ela assistia aos desfiles das Escolas de Samba com a mãe, Luci, de quem herdou a paixão pelo Grêmio Recreativo Cultural Escola de Samba Nenê de Vila Matilde. “Torço pela Vila desde que me entendo por gente, e minha mãe foi a responsável por passar esse amor e esse carinho para mim. Ela sempre colecionou os cds dos sambas enredos de todos os anos e sempre foi matildense”, explica a aluna de Neurociência da Universidade Federal do ABC (UFABC), Talita Maria Senra Martins, 23.
Hoje,tocando agogô na Bateria de Bamba da Nenê da Vila Matilde e na Infanteria, assim apelidada a bateria da UFABC, Talita costuma brincar que o carnaval chegou em sua vida quando ainda estava na barriga da mãe. “Ela estava no sétimo mês de gravidez quando foi para o Sambódromo assistir ao desfile da Nenê. Em 2012, porém, tive o privilégio de assistir pessoalmente no Anhembi, o meu primeiro contato direto com o carnaval”, recorda.

A ritmista conta que a sua entrada na Infanteria, em 2014, foi um passo para ela ingressar na bateria de Bamba da Nenê, em 2015. Dessa forma, a rotina da universitária passou a se dividir entre os estudos e o carnaval. “Eu estudo de manhã e, à tarde, trabalho em um dos laboratórios da faculdade, onde realizo uma pesquisa sobre a Doença de Alzheimer. As quartas e quintas-feiras tento dar um jeitinho de passar nos ensaios da Infanteria, em Santo André, e, muitas vezes, vou direto para o ensaio da Bateria de Bamba. Aos finais de semana, aproveito para sair com os amigos, ver os parentes, ir à Igreja e descansar. Mas essa correria me rende algumas reclamações porque, em uma determinada época do ano, meu assunto preferido é o carnaval”, confessa.

O agogô
Quando entrou na escolinha da Infanteria, Talita escolheu o tamborim, mas não conseguiu ingressar na bateria principal. A ritmista, contudo, gostou muito daquele ambiente de bateria universitária. Por incentivo dos colegas e por persistência, ela começou a testar os outros instrumentos, até chegar ao agogô. “Adaptei-me com o som do instrumento, com a maneira de tocar e, principalmente, com os desenhos encaixados na bateria. Eu toco agogô e acho que fui escolhida por ele”, declara, aos risos.

Talita e a Nenê da Vila Matilde
A convite da integrante da Escola e amiga, Luciana Pereira, Talita conta que desfilou na ala de gala da Nenê de Vila Matilde por dois anos. — “Mas ao entrar na escolinha da Bateria de Bamba, conheci o Albner (o Molejo) diretor de tamborim, na época do Mestre Markão. Ele foi o primeiro a abrir as portas da bateria para mim, me chamando, inclusive, para tocar algumas vezes nos ensaios.”

Outra grande influência, na história de Talita com a Nenê, foi a Carla Luana, coordenadora de agogôs da agremiação, que também já foi entrevistada pelo Batucada Feminina. “Eu postei uma foto em que A Infanteria venceu um torneio universitário, o Interbatuc, com mais de 20 baterias concorrentes, e ganhamos também o estandarte de melhor agogô da competição. Após ver a foto, a Carla Luana me convidou para compor a ala de agogôs”, conta.

Talita também não deixa de destacar a importância do Mestre Pascoal, que a recebeu muito bem assim que ela chegou na Bateria de Bamba. — “Por ele, tenho uma admiração e um carinho muito grande”, declara.
Talita estreou na avenida como ritmista, na Nenê de Vila Matilde em 2018. Antes, porém, em 2016, ela já havia se apresentado na Escola de Samba Unidos de Santa Bárbara. Nos dois desfiles, ela tocou agogô.
Desfilar em ala foi sensacional; ouvir o samba, exaltação. Passar pela bateria, foi uma alegria muito grande! Quando percebi, o desfile já estava perto de acabar e próxima à cabine de transmissão da Globo. “Eu sentia um nervosismo, misturado com ansiedade; o coração começou a bater mais forte, o olho encheu de lágrimas”, relembra.

Baterias e suas diferenças
Talita afirma que as diferenças em se apresentar em baterias de faculdade e de escolas de samba estão na forma de tocar, nos eventos e no tempo de apresentação dos seus integrantes. “A maioria das baterias universitárias surgiu para se apresentar em festas, jogos e, com mais experiência, participam de torneios universitários. Nesses torneios, nossas apresentações duram 20 minutos, tocamos samba por muito mais tempo e bossas, que aparecem em partes mais específicas. Nas agremiações, o ritmo das baterias é mais pesado e tocamos por mais de 65 minutos”, explica.

Influências no samba
Na hora de apreciar um bom samba enredo, os preferidos de Talita são os sambas da Nenê de Vila Matilde. “Mas gosto muito de alguns sambas do Vai-Vai, Unidos do Peruche e Camisa Verde e Branco, aqui de São Paulo. Do Rio de Janeiro, aprecio os sambas da Portela e da União da Ilha”, revela.

Quando se trata de pessoas, a ritmista não se esquece dos muitos amigos da Infanteria, como o Paulo Henrique, a Amanda Moraes, o Tim Fernandes, o Luiz Vinícius. “Eles me forneceram muitos ensinamentos que eu levo comigo, mas, para não ser injusta, não vou citar todos e acabar esquecendo alguém”.
Talita aproveita para ressaltar a importância da mãe, sua maior e melhor influência na vida e no samba. — “Ela me mostrou todo esse mundo do carnaval, que eu amo fazer parte”, declara.

Resistência e preconceito
Talita relata que não enfrentou quase nenhuma resistência quando decidiu ser ritmista, só por parte do pai. — “Ele foi o único que ficou mais com o ‘pé atrás’, devido ao ambiente que até então para ele era desconhecido, mas impôs a condição para que eu frequentasse a escola: Ele teria que ir junto. Assim, a família toda acabou indo comigo! Eu na bateria e eles, na Ala de Gala”, diverte-se.

Ela também diz que nunca sofreu preconceito de gênero nas baterias e garante que sempre foi muito bem tratada. “Mas já ouvi alguns comentários como: ‘A branca no samba’ ou “fazer samba de branco’”, lamenta”.
Mas tanto na Infanteria quanto na Bateria de Bamba da Nenê, Talita tira de letra qualquer tipo de discriminação. “Porque a mulher não deixa de ser feminina por tocar em uma bateria. Acredito que, por conta do ambiente, predominantemente masculino, ela se torne até mais bonita, mais mulher. Porque o lugar de mulher é onde ela quiser: Na escola de samba que ela mais gostar, com o instrumento que desejar, na faculdade e no curso que escolher”, opina.

Talita, contudo, observa que as mulheres estão conquistando seu espaço dentro das baterias. “Vejo isso na própria Infanteria: quando eu entrei, em 2014, só tinha uma mulher na caixa. Com o passar dos anos, a presença feminina na “cozinha” só aumenta”, comemora.
Por fim, Talita incentiva as mulheres que sonham em tocar em baterias, a não desistirem dos seus objetivos. “Mesmo que, inicialmente, não seja o seu instrumento preferido, se dê a oportunidade de aprender outro instrumento, pois você pode se surpreender. Dificuldades sempre vão existir, mas, se tocar em uma bateria de escola de samba ou de faculdade for, realmente, a sua vontade, uma hora dá certo”, conclui.

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