Bizóca

Marcelo Lacerda – São Paulo, 15 de Junho de 2020.


Fonte: Arquivo Familiar

Saudações povo do Samba!

Essa semana tenho a honra de trazer um pouco da história de um grande sambista o qual tive a sorte de conhecer e compartilhar de sua amizade!

A história desse músico é de uma relevância tão grande para o samba de Guarulhos que estou trabalhando o projeto de um livro com sua biografia e decidi dessa vez que ao invés de eu contar a história do músico, vou deixar o espaço para que seu filho mais velho o faça!

Um Grande Homem e Seu Cavaco. João Baptista do Nascimento. – BIZÓCA

São exatamente 7:h15m da manhã neste dia 05 de Junho de 2020, um grande silêncio e paz enchem esse lugar aqui em casa e como esses escritos que virão, será de um grande homem e ótimo músico as sensações e pensamentos sobre esse homem se afloram em todo meu ser. Estou emocionado sim, mas consciente dessa grande responsabilidade que tenho nas mãos. Em 26 de Agosto de 1935, nascia na cidade de Jaú no estado de São Paulo o menino João Baptista Nascimento, um garotinho como todos com um diferencial. Nascia em uma família de músicos tendo seu avô como integrante da Banda Anjos do Inferno. Ganhou um violão, foi o suficiente para ir aprendendo e para tocar cavaquinho foi um pulo. Sua infância foi como a de todo moleque da cidade, brincar e tocar violão, brincar e tocar cavaco, sem ninguém ensinar.

Com o passar dos anos mudou-se para São Paulo e foi trabalhar com 16 anos em uma empresa na Barra Funda chamada Ferraretto onde trabalhou por muitos anos e começou a ter contato com o Cordão Carnavalesco Camisa Verde e Branco. O João Baptista conheceu uma moça aqui em São Paulo chamada Elza, ele com 17 anos e Dona Elza com 16, ela era de Americana – São Paulo e logo se casaram. João e Elza passaram por muitas dificuldades na capital, mas foi o suficiente para deixar a casca mais dura e foi possível suportar todas as dificuldades e sempre com o samba em suas veias e todo domingo era dia de samba com grandes músicos amigos, Wilson Miranda que nos anos 60 fazia muito sucesso com seu compacto simples cantando musicas dolentes, Julinho, compadre dele que tocava tamborim, surdo, pandeiro, Walter que tocava guitarra demais e o João Bizóca com seu cavaco e suas composições. Ele sempre teve essa veia musical por questões de família e isso fez com que tivesse o seu cavaco como segunda pele.

Com o passar dos anos os filhos foram nascendo e vendo aquele talento se desenvolvendo cada vez mais. João e Elza sempre tiveram grande preocupação com a educação dos filhos. O João sempre foi ligado a escola de samba, com isso ajudou a fundar a Escola de Samba Camisa Verde e Branco que era Cordão Carnavalesco, creio que em 1952 e sempre acompanhado pela esposa Dona Elza. Eu como filho mais velho fui levado por ele na Camisa Verde e Branco aos 9 anos de idade e percebi o quanto ele era respeitado na Escola de Samba, inclusive o seu Inocêncio Tobias gostava muito dele, como pessoa, um cara muito respeitador e um grande cavaquinista. O Sr. Inocêncio Tobias era Presidente da Camisa Verde a quem tive um grande prazer de conhecer. Por volta de 1972 o João Bizóca montou seu primeiro grupo de samba, MPB e as vezes eles tocavam até um forrozinho, tinha cavaco, timba, pandeiro e cuíca, muito bacana. O João Baptista Bizóca sempre foi jogador de várzea, mas era um bom médio volante, jogou muitos anos no Veteranos da Vila Santa Maria, formando o meio de campo com o Zé Matheus pai do Carica do Sensação. Sempre gostou de futebol, jogou em vários times bons na época, Alvorada da Vila Carolina, Arsenal do Paraiso na Marginal, foi treinador da PRODESP onde o Sr Valdir J.de Morais era o goleiro do time, depois de ter encerrado a carreira na S.E.Palmeiras. Sempre que o jogo terminava, o samba passava a ser o personagem principal.

As composições do Bizóca eram muito conhecidas no meio dos batuqueiros, boleiros e um dos sambas mais bonitos feito por ele logo depois de vir morar com a família em Guarulhos foi o SAMBA EXALTAÇÃO A GUARULHOS, inscrito em um festival de musica da Escola Conselheiro Crispiniano e ganhou aquele festival, inclusive eu que cantei esse samba, foi tudo muito lindo. No inicio dos anos 80 o grupo do Bizóca começou a ter grandes transformações porque os filhos foram crescendo vendo o pai fazendo e tocando samba.

Entrou no grupo o mano Serginho do pandeiro e nessa época o Pepino já era integrante do grupo e eles tocavam em todos os lugares de Guarulhos, Panelada, Óbvio, etc.. João Baptista sempre foi um homem muito atencioso com as pessoas, muito respeitador e com uma personalidade muito forte, cuidadoso com seus 9 filhos e apaixonado pela esposa, a grande guerreira Elza. Felizmente, comecei a tocar com esse ícone em 1986 e nunca mais saí.

As composições do Bizóca sempre em alta com uma qualidade e linha melódica que só ele sabia fazer. A casa do meu pai sempre teve a presença de grandes músicos da cidade e ele gostava de ver essas pessoas na casa dele, seu Expedito, Zé Gordo, Adauto, Seu Nunes, Boca do violão e por ai vai. O Bizóca era realmente um cara diferente.

Uma vez, acho que em 1992, estávamos no camarim aguardando nossa vez de se apresentar, já com o Sérgio, Pepino, eu, Juninho, Mogica, Carlinhos Preá e ele claro, no JB Sambar no Bixiga. O Salgadinho Katinguelê entra no camarim, pega o cavaco do Bizóca e tenta começar a tocar e diz pra ele que o cavaco estava desafinado e se poderia afina-lo. O João Bizóca disse pra ele assim: “Filho, deixa esse cavaco aí porque essa afinação é de bandolim e você não vai conseguir tocar”. É por essas e outras que fazia esse camarada ser diferente. No Camisa Verde e Branco, toda vez que ele estava tocando o Netinho Negritude ficava sempre vendo-o tocar além de terem uma grande amizade, o próprio Prateado conheci através do meu pai, ele tinha 22 anos e já tocava contra-baixo. Nos anos 90 o Grupo Mesa de Bar com o Bizóca a frente passou a tocar em muitos lugares e sempre o ponto alto era o Bizóca.

Em 1994 quando ele gravou seu primeiro disco junto com os filhos, foi uma alegria só entre todos nós do grupo e de todas as famílias, seja a do Pepino, Maurinho, Mogica, Juninho e as composições eram inéditas compostas pelo João Bizóca, Jorge Piracy, Murilão e Bene do JB. Quando estávamos na melhor fase do grupo, muitos trabalhos na Promoart, várias casas em São Paulo e com projeto para gravação do segundo disco, trabalhávamos com o Roque do SBT, mas infelizmente não houve tempo.

O grande João Baptista Bizóca Nascimento veio a falecer pegando a todos de surpresa em 13 de dezembro de 1997. Estamos acostumados aqui no Brasil a não valorizar de verdade nossos músicos, atores, trabalhadores em geral que fizeram alguma coisa pela arte, mas a memória desse grande homem e músico que tocava cavaquinho, violão, banjo, cantava e compunha jamais será esquecida, sempre lembraremos de João Baptista Bizóca Nascimento.

Por José Roberto Moreira, filho mais velho do BIZÓCA.

Abraços.

 

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