Raphael Paulista

Marcelo Lacerda – São Paulo, 29 de Maio de 2020.


Fonte: Arquivo Próprio

Salve povo do samba !

É com grande satisfação que venho trazer essa semana um pouco da trajetória do meu amigo Raphael Paulista, violonista, arranjador e compositor, mais uma referência em violão de 7 cordas.

Raphael nasceu em São Paulo em 1983 na região central, passou sua infância e adolescência na rua Visconde de Taunai no Jardim Munhoz, pra se ter uma visão geográfica sua casa ficava atrás do bar do Zé padeiro e a uns 500 metros da Goiabeira, é isso mesmo, também bebeu daquela fonte.

Foi lá ainda criança por volta dos seus 9 anos que começou a apreciar o samba vendo o Henrique o Eduardo e o Luiz tocando no grupo “Os Manos” (pioneiros da Goiabeira) logo depois o Ricardinho também e tantos outros, na verdade é difícil não se envolver em uma região em que os amigos da rua, escola etc., respiram samba, os amigos de infância eram em quase sua totalidade de músicos, tinha o Ton (pandeiro), Dieguinho (cavaco), o Neguinho (Ademilson Marçal), Paulinho Facada, Sabão, Elvis, Lidião, Rafael Miji e seu irmão Reginaldo, tinha o B.A. do pandeiro, enfim eram na sua maioria músicos e foi também o que o fez tão cedo querer tocar como aqueles bambas mais velhos. Decidiu então aprender a tocar e o Ademilson o auxiliou nessa empreitada onde o próprio Raphael admite ter sido difícil pois não tinha muita noção de ritmo, nessa parte contou com a ajuda de outro conhecido aqui da coluna o Lincoln que já tinha ajudado o Ademilson também, deu umas aulas pro Raphael naquela época com uma timba e o Raphael treinava com um latão .

E assim foi crescendo e aprendendo, tirando musicas com o Ademilson, ouvindo Arte Final e tantos outros discos junto com o amigo e vendo os bambas da Goiabeira no seu dia a dia, Ricá, Neilton, B.A, Choquito, Natal, Bolinho e tantos outros que também lhe serviram como referência.

Mas como nem tudo são flores, Raphael vivia um conflito interno pesado, só queria saber de música, sua família lhe fazia as cobranças que toda família faz, tinha que estudar, trabalhar etc., e Raphael só queria saber de samba, não sabia se expressar pra explicar o que almejava da música (talvez isso ainda fosse uma incógnita), mas estava claro o que ele não queria fazer. Uma vez até para atender os anseios da família arrumou um emprego junto com o Ademilson em uma escola de inglês no centro de Guarulhos onde suas funções eram a de abordar possíveis alunos na rua e preencher uma pesquisa, porém ao invés disso eles ficavam na rua um de cada lado batucando na prancheta e relembrando sambas que gostavam, não preciso dizer que o plano de carreira deles não foi muito longe, pelo menos naquela carreira.

Raphael era impaciente queria logo sair de casa ir viver de samba, uma vez ele até arrumou as coisas pra ir pro Rio se aventurar mas o Ademilson o impediu, não queria que o amigo se precipitasse, então o jeito era ele ficar por ali e tentar aprender o máximo que pudesse.

Foi fazer aulas com o professor Moacir Ramalho e com o Mestre Luciano Nascimento, frequentou a ULM e diversos workshops como os do Hamilton de Holanda, Hélio Delmiro, Hermeto Paschoal, Marco Pereira, Joel Nascimento, Turíbio Santos, Sebastião Tapajós, Ulisses Rocha, Zé Menezes entre outros. Formou-se em musica na faculdade Claretiano.

Mas o seu chamamento para sair da Goiabeira e ganhar o mundo foi mais forte e num desses empregos em que trabalhava na rua, hora de office boy, hora panfletando, chegou em suas mãos um jornal que continha um anúncio sobre um curso de choro em Brasília onde os responsáveis eram os músicos Hamilton de Holanda e Fernando Cesar, sem pensar, ligou para o Fernando, quem atendeu foi uma moça que trabalhava no projeto e que mais tarde o colocaria o apelido que virou nome artístico “Paulista”, então Raphael explicou seus anseios à Fernando e o mesmo intercedeu com uma bolsa de estudos, mas advertindo que não seria fácil largar família, casa ,etc., para perseguir seu sonho e realmente não foi. Raphael foi pra Brasília em 2003, foi acolhido no projeto, morou em pensões, dividiu quartos, trabalhou pra pagar estadias, tocava na noite pra ganhar R$ 20,00 e comprar cachorro quente e aproveitar pra assistir a televisão do carrinho do dog, mas com muita dedicação e resiliência alcançou seus objetivos.

Hoje Raphael Paulista é referencia em violão de 7 cordas, possui um método de ensino e um curso em EAD, ambos desenvolvidos por ele próprio, além de possuir um modelo de 7 cordas que leva seu nome fabricado pelo talentosíssimo Luthier Luiz Keller.

Além de desenvolver um programa de entrevistas no instagram o “Na Quebrada com Raphael Paulista” onde ele entrevista e tira o máximo de informações de músicos para músicos, por onde já passaram: Sombrinha, Sereno, Ademir Batera, Bira Presidente, Ubirany, Márcio Vanderlei, Marcos Esguleba entre outros mestres que têm colaborado muito com a rapaziada que quer aprender com as dicas valiosas dos mesmos .

É também idealizador da ONG Juntos no Bem, uma casa de cultura e esportes.

Teve como mestres alguns baluartes como: Ademilson Marçal, Fernando Cesar, Alencar 7 Cordas, Rafael dos Anjos, Luis Henrique, Luis Pinheiro e Moacir Ramalho.

Acompanhou diversos músicos como: Nelson Sargento, Monarco, Almir Guineto, Elza Soares, Noca da Portela, Fabiana Coza, Moacyr Luz, Toninho Geraes, João Martins, Marquinhos Satã, Osvaldinho da Cuíca, Nilze Carvalho e tantos outros…

Fez apresentações em diversas casas em vários estados.

E quando fiz a pergunta se tinha valido a pena, sem pestanejar ele respondeu que sim, conquistou tudo que tem através da música sua família, seu sustento e seu respeito.

Estação Goiabeira
Jd. Munhoz – Guarulhos – SP
1990

 

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